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Ancestralidade

Você já ouviu a frase “Saúdem os seus ancestrais”?! Eu já. E quando eu escutava eu levava muito para um caminho distante do presente, do não conhecimento ou do apagamento, porque foi isso que aconteceu com a gente né? Sequestraram os nossos ancestrais, apagaram seu nome, sua cultura e isso vem transcendendo por gerações de diversas formas. E é comum famílias negras saberem histórias somente das 3 últimas gerações, por isso, essa ideia de ancestralidade, não era palpável na minha cabeça.
Há alguns meses eu procurei entender um pouco melhor o que é essa ancestralidade que as pessoas falam tanto e em um dos conteúdos que eu assisti falavam exatamente sobre como a gente pensa em “Ancestralidade” com essa distância toda e acaba não olhando para os nossos mais velhos que estão vivos, nossos pais, avós, tias.
E é engraçado porque depois de entender essa parte meu relacionamento com a minha mãe melhorou muito, porque eu passei a compreende-la em sua totalidade, para além do conflitos de gerações. Afinal pensamos, agimos e somos pessoas diferentes. Batemos muito de frente. E essa nova narrativa deu abertura para olhá-la com mais respeito, ela chegou até aqui com 65 anos usando essas estratégias de sobrevivência, quem sou eu para dizer o contrário ou tentar mudar jeito dela. Me fez entender sobre tempo, sobre ir com calma, sobre diálogo, por mais que o jeito que ela aprendeu tenha sido diferente do meu, me ensinou sobre observar e aprender mais. Isso é sobre troca também, sobre vida. Acho que empatia e humanização seria uma boa palavra para incluir aqui também.
É olhar o lado paterno e essa parte nem sempre é comum ou fácil para nós pretos, geralmente nossas mães são solos ou os nossos pais são engolidos por sentimentos e açoites que descontam muitas vezes no alcoolismo ou lidam de alguma outra maneira até se afastar dessa relação afetiva entre pai e filho, neto e vô. As vezes eles morrem mais cedo também. Para mim, foi mais leve olhar pro meu pai como um ser humano e não com o papel de pai dentro desse processo, desse olhar ancestral e vivo, confesso que ainda está em construção e tem sido mais leve depois de eu ter trago esse entendimento.

Um ponto que precisa ficar explicito aqui é que essa é uma das formas de você pensar e entender ancestralidade, existem muitas outras que devem ser consideradas, eu quis dar ênfase para esse ponto porque foi um marco importante para mim. O que é ancestralidade para você?
Estamos vivos e vamos encontrando estratégias de lidar com o nossos antepassados, com os vivos e também com os mortos.
Afinal, somos resistência e esse olhar afetuoso para quem estava aqui antes de nós é potência.

Eu sou Paloma, 26 anos, mulher negra, periférica, escritora, corajosa e viva! "O que a gente escreve toca e sente em escritas ficam imortais” Palu Macedo

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