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Karol Conká, Lumena e a Mulher Preta no Brasil

Vamos deixar um pouco os memes de lado, vamos colocar a personalidade complicada e as características que as fizeram errar em suas ações em outro ponto de vista e vem comigo em algumas observações que acabei tendo depois de pensar sobre tudo que vi nessas duas mulheres. 

Já adianto que não vou passar pano para ninguém aqui, mas quero te mostrar um ponto de vista, que mesmo existente, não justifica as ações de ambas, bora?

Eu sempre fui vista como uma mulher “militante” me deram essa “carga” muito nova, quando de fato eu estava descobrindo o racismo e começava a me posicionar fortemente contra ele, eu estava em uma fase em que saí de “ Cotas não deveriam existir” para “ Caramba, tudo isso aqui é uma forma estrutural de racismo” e sim, possa ser que em alguns momentos eu tenha ficado tão vidrada nisso que 90% das minhas falas eram sobre racismo. 

Não é que eu queria ser chata, não é que eu tinha um ego grande, mas eu queria abrir os olhos das pessoas assim como eu abri o meu, queria que elas lutassem comigo pois me sentia sozinha na luta, literalmente era como se eu lutasse contra o mundo. 

Essa fase me trouxe alguns pontos positivos e outros pontos negativos, então quero listar alguns para vocês que me lembraram as meninas: 

  • Aprendi a ter minha própria opinião sobre qualquer assunto, mas também criei a dificuldade de ouvir as dos outros ( inicialmente porque não entendia como aquelas pessoas podiam ter aquele tipo de pensamento); 
  • Isso sugava muito a minha energia, eu me irritava, perdia horas de sono e chorava muito, isso me fez ficar frustrada, ferida e automaticamente quando via o outro nem sempre conseguia me posicionar e acabava ferindo as outras pessoas; 
  • Perdi contatos com muitas pessoas e esses afastamentos também me trouxeram um certo tipo solidão; 

Vou pontuar apenas esses três porque quero que vocês analisem e comparem isso comigo. A culpa não é minha, aliás, eu não teria que passar todas essas coisas se o racismo simplesmente não existisse, mas o que não estamos falando é que lutar contra o racismo nos destrói. 

Eu vi na Karol uma luta tão grande que ela precisou ter para chegar onde chegou, numa indústria totalmente masculina, onde ela não se encaixava. Ela tinha aquela mesma “carga” que nós temos por levantarmos nossas bandeiras e talvez no meio de tanta guerra, ela virou uma pessoa que só se comunica com o combate. 

Ou seja, toda a nossa luta nos traz um combo de armaduras, ninguém quer ser afetado sempre no mesmo lugar, então criamos formas de nos “proteger” daquilo. 

Quais armaduras acabamos acolhendo para nos defender desse mundo machista e racista?

Eu só queria chegar nesse ponto, todas nós diariamente carregamos com a gente armaduras que criamos por tanto apanhar dessa luta. 

Eu sempre digo que por vezes penso como seria a minha vida se eu tivesse apenas ficado calada sobre o racismo, mas não seria eu mesma, entende? Só que eu não anulo que toda essa trajetória me trouxe pontos muitos fortes que precisam diariamente serem trabalhados na terapia. 

Era nítido como aquelas duas mulheres negras estavam feridas ao ponto de ferirem outras pessoas gratuitamente. 

Não basta o fato de crescermos sem muita representatividade, diminuindo nossa autoestima, nosso amor próprio, nossa facilidade de cair em relações tóxicas por isso. Quando decidimos nos levantar e correr atrás das coisas não somos aplaudidas e sim apedrejadas e essas pedras nos fazem criar armaduras. 

A pergunta que eu deixo pra vocês é:

Quais armaduras você criou? É enxergar o racismo das pessoas até quando talvez ele nem exista? É se achar superior para que ninguém te coloque mais como alguém inferior? É você surtar com uma branca por acreditar que é invalidada em um relacionamento com um homem branco? É você se mostrar forte mas estar totalmente quebrada por dentro? É se afastar de relações afetivas?

O que suas armaduras fizeram com você? Quem você se tornou com elas? Qual lado bom ela te trouxe e qual lado ruim ela também te deu? 

Que nós mulheres possamos de fato, comunicar nossos erros, porque além de negras somos mulheres e humanas. Mas que isso não nos faça sentar em uma mesa com pessoas racistas para rirmos de nossas irmãs, aliás, a armadura que existe nelas, também está em você, pode estar de uma maneira diferente, mas também está. 

Sté Souza, tem focado trabalhar com conteúdos que sejam para mulheres negras, com blogs, projetos de empreendedorismo e muito conteúdo nas redes sociais.

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