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Como é fazer parte dos 4%

<Carta aberta, sobre uma mulher negra no mundo corporativo>

Desde muito nova, quando meu pai me ensinou sobre ser independente. Coloquei toda a minha energia no trabalho. Confesso que no início quando meu pai dizia que por ser negra eu deveria ser duas vezes melhor, eu não entendia. Não parecia difícil, não parecia ser complicado, mas é. 

Eu sonhei em ser uma executiva de negócios e por mais que exista em mim um espírito de empreendedorismo surreal, eu sempre quis fazer carreira em alguma empresa e ir crescendo com o tempo. Sempre achei bonito aquele papo de “ fulano entrou como estagiário e hoje é CEO”. E mesmo sendo de uma geração de que isso não é mais válido, eu quis isso e como quis. 

Hoje estou indo para o segundo ano como gestora de uma multinacional e bom, parece que eu cheguei lá não é mesmo? 

Tenho 25 anos, sou uma mulher negra, independente e faço parte do 04% de mulheres negras na gestão.

Eu nunca falei sobre isso em lugar algum, mas como é difícil ser mulher e preta em um ambiente onde ambos os adjetivos fazem parte de uma minoria vista como alguém sensibilizada e sem voz. 

E o meu maior problema é que eu sempre tive voz. 

Enquanto homens brigam, discutem e dão socos na mesa. Eu a todo momento preciso me comportar, se eu não concordo eu sou teimosa, se digo que estão errados eu não os respeito, se me posiciono eu sou raivosa, se não me posiciono eu sou passiva. Cheguei até aqui e ainda escuto: “ você tem a idade da minha filha”. – Como se de algum modo ele esteja quebrando toda a figura profissional que há entre nós e colocando em cima de mim uma superioridade paterna da qual não deveria existir. 

“Você é nova ainda, tem muito o que aprender” – Como se idade fosse o parâmetro para sabedoria e aprendizado, eu posso ter passado por infernos do qual você com 10 anos há mais, não passou. Assim como o tempo te ensinou, não quer dizer que eu não tenha aprendido ou que eu não tenha algo a te ensinar também, aliás, ter algo a ensinar não te faz superior ao outro. 

Quando minha idade é colocada em questão e acredite, ela é colocada a todo momento. Eu tenho total ciência de que com ela vem o meu gênero e raça. Você ainda é nova = Você é mulher, negra e nova. O motivo?

Homens brancos e novos são muito bem vistos em cargos de gestão. “Ele conseguiu tão cedo, deve ser muito bom no que faz.” 

A imagem de verem uma mulher negra se posicionando contra eles incomoda e eu posso ver isso em seus olhos. Quando escutam da gente a vida toda: – Sim senhor, pois não senhor. Eles não conseguem lidar com falas que os contradizem. 

No mundo corporativo um homem branco precisa apenas de uma boa vestimenta e uma boa lábia. As pessoas brilham os olhos ao ouvi-los. 

Já eu preciso ser uma equipe de marketing inteira para ganhar um pouco de credibilidade e mesmo assim a cada erro as pessoas vão questionar sua capacidade, as pessoas vão contradizer aquilo que você estudou anos para ser. As pessoas vão tentar a todo momento te dizer de todas formas possíveis aquilo que o racismo velado quer dizer: “ Você não deveria estar aí”. “Esse não é o seu lugar”. “ Você não é boa o suficiente pra isso”. “ Nós não acreditamos em você”. 

Então todas as vezes que me vejo no lugar onde estou eu entendo o que o meu pai quis dizer sobre ser duas vezes melhor.

Minha trajetória ainda não terminou, os meus desafios são muitos e eu sei que eles não vão acabar porque eu estou indo contra todas as estatísticas que existem, eu sou 4% eles são 96%. Pra eles tudo que eu disse aqui é mimimi pra mim é o motivo que me faz levantar todos os dias e ser alguém melhor, ninguém me deu esse espaço. Eu tomei, eu tive que ir pra cima, tive que mostrar que quero e posso ser alguém com o suficiente para empresa.

Agradeço às pessoas que enxergaram essa vontade nos meus olhos e que me deram oportunidade e agradeço a cada pessoa que tem diariamente feito com que os meus dias sejam um inferno, agradeço a cada pessoa que me causou mal. Que me enganou, que não soube lidar profissionalmente com todas as crises que passamos como um time. A cada um que um dia, profissionalmente me fez dormir mal e acordar péssima, que me tirou a paz e a saúde mental. Por me moldar e me fazer entender de que não sou o tipo de mulher negra que estão acostumados a ter ao seu redor. Eu não agradeço por vocês existirem e não sou feliz em encontrar gente assim no meu caminho. Mas agradeço por enxergar o tipo de profissional que eu nunca quero ser. 

Sté Souza, tem focado trabalhar com conteúdos que sejam para mulheres negras, com blogs, projetos de empreendedorismo e muito conteúdo nas redes sociais.

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