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Quantas transições cabem em um cabelo afro?

Esse cabelo que diz muito sobre identidade, troca, sobrevivência, amor próprio, autonomia e liberdade. Quantas fases, cachos, crespos, tipos, tradições e traduções de nós cabem dentro dele?
Quantos espelhos eu olhei? Quantos olhares diferentes eu tive sobre ele, seja meu ou do outro? Quantas de mim coube nesse cabelo todo?

A transição que vem de dentro para fora é um processo diário, eu tentei pensar em quantas liberdades e histórias que meu cabelo veio contando junto comigo esse tempo todo, até me perguntei se a transição tem fim, será que tem? Será que é só deixar o crespo crescer e fim, acabou a transição? Acho que no sentido literal de como iniciou esse movimento que o mercado acompanhou e bem R$$$, sim, mas olhando por um outro ângulo, acho que ela é um marco, um inicio e não tem fim.

Hoje eu gosto de brincar com o meu cabelo porque por muito tempo ele foi como vidro, tão frágil ao ponto de eu querer ser invisível. Eu facilmente me quebraria inteira por causa dele, é uns dos reflexos do racismo né?

A transição foi troca quando eu pude incentivar a minha mãe a olhar com mais carinho pro cabelo dela, quando eu pude aprender com a minha irmã como pintar e descolorir sem medo, ela que tem outra textura de cabelo e outras questões e pudemos descobrimos juntas, uma com a outra, tanta coisa sobre eles, nossos amados cabelos. Até experimentar cortes de cabelo e se arrepender, as vezes demora para crescer né? hahaha Liberdade é sobre errar também!

Quantas mulheres eu encontrei em banheiros, ônibus, metrô e falei sobre transição, incentivei, falei sobre cremes, medos e cortes!

Gente, e a primeira vez que eu sai de turbante?? puta que pariu!!! Me senti poderosa para caralho! Foi uma construção até chegar nesse ponto, não foi do nada hahaha

Quando eu raspei o cabelo porque eu quis me sentir menos sexualizada, cabelos longos são mais bonitos? Por que? Minha feminilidade não se resume a isso aqui, deixa eu cortar, eu quero me ver raspada também, a ainda pintei de loiro e amei.

Ou agora, como ele tem sido religião, derrubar o cabelo é uma questão para uns, morte para outras, é renascimento, proteção, símbolo, sacrifício para alguns, preceito para outros. Para mim foi liberdade e recomeço, é meu ori, tem orixá por aqui também.

Hoje eu falo sobre isso com um carinho enorme, mas a Paloma que iniciou a transição capilar foi tão forte ao ponto de ouvir comentários racistas, revisitar traumas, assistir milhares de vídeos sobre transição, aprender respostas ácidas e se blindar de cenas que nos visitam quase sempre, até na TV.

Eu aprendi a me amar, me acolher, encolher, esticar e raspar para conseguir me ver inteira. Aceitar a totalidade do que meu cabelo pode ser, é muito maior do que eu posso verbalizar aqui.

Quantas transições cabem em um cabelo crespo?

É um processo contínuo e um reforço diário. E eu nem comentei sobre as tranças que eu usei e ousei no meio desse caminho.

As noticias sobre nossos cabelos nos últimos dias não foram boas e eu sempre me pergunto como uma pessoa que está iniciando esse processo de amar seus cabelos crespos, deve estar se sentindo, ainda vejo a gente se esforçando muito para mostrar que se ama, para quem mata a gente desde o início.

Gente!!!! Semana que vem chega a Lace que eu comprei, será que eu vou conseguir usar?

Eu sou Paloma, 26 anos, mulher negra, periférica, escritora, corajosa e viva! "O que a gente escreve toca e sente em escritas ficam imortais” Palu Macedo

One Comment

  • Amanda

    Parabéns, Paloma, pelo texto sensível e necessário sobre a transição.

    Peço licença, no entanto, porque, enquanto uma mulher branca, as imagens que moldam meu cabelo com certeza são mais privilegiadas do que de mulheres negras. E um cabelo cacheado é convidado socialmente para a dança da estética branca, o que já não acontece com um cabelo crespo.

    Meu processo pela transição esbarrou num assunto intocável nas minhas famílias: o fato de serem famílias interraciais. Obviamente isso era nítido, e o silenciar do racismo impediu que essas questões florescessem e encontrassem um lugar seguro para desabrocharem. Repensar a branquitude é, também, compreender esses acessos interseccionais – aqui manifestos pelo cabelo – e enxergar novas possibilidades.

    Obrigada por me fazer refletir sobre questões que não vivo, mas que com certeza passarei adiante da melhor forma que eu puder. Você é incrível!

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